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Whatever space and time mean, place and occasion mean more.*

Aldo van Eyck

 

O trabalho e obra do arquitecto José Pires Branco (JPB – Casegas, Covilhã 1928), com implantação geográfica entre os concelhos de Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Idanha-a-Nova e Portalegre, desenha um mapa que contém dados preciosos para uma cartografia deste vasto território.

Ao longo de cerca de quarenta anos produziu de forma sistemática, em atelier próprio ou em cargos na administração central e local1, um conjunto de trabalhos que revelam a importância que a extensão de um gesto continuado no tempo pode significar num mesmo território. Assumidas as contingências da encomenda, vontades do cliente e programas previamente estabelecidos, adoptou uma atitude empenhada e aberta à contaminação. Num universo de clientes de grande diversidade sócio-cultural, públicos e privados, conduziu os seus trabalhos, de natureza e escalas diversas, a um ecletismo voluntário. 

 

Ecletismo voluntário

No final dos anos 1950, era o único arquitecto residente na região e foi nesta condição, e também com esse estímulo, que os seus primeiros projectos e obras revelaram um forte entusiasmo pelas ideias fundadoras do movimento moderno. Os novos programas de carácter público, como as estações de serviço, as unidades fabris e os edifícios associados ao lazer e turismo, permitiram a JPB realizar os primeiros ensaios sobre a espacialidade moderna.

Nestas primeiras propostas (maioritariamente não construídas), a original sedução pela expressão mais heróica e circunscrita pelos modelos da Arquitectura Moderna ganhava imediatas traduções e declinações quando se confrontava com o território a trabalhar.

O restaurante/estalagem em Piornos, de 1962, e a casa de férias nas Penhas da Saúde, de 1960, são dois exemplos onde se declaram e combinam outras referências. Usando na mesma construção materiais com diversas assemblagens em processos híbridos de construção, entre um sistema em betão armado e paredes em pedra, coberturas planas, em telha ou madeira, é sobretudo na forma como se unem todas estas matérias e na relação do conjunto no toque ao solo, que o desenho aparece mais contingente. Na casa Spohr (Covilhã, 1960), o piso 0 e o piso -1, semi-enterrado, são o desenho da topografia de encaixe. Os acertos de cotas geram os limites da implantação, caracterizando todos os espaços de acesso e estadia. O volume do piso 1 é sobreposto com geometria regular, que se destaca da geometria de implantação. Estes exemplos sugerem um desejo maior de trabalho sobre a forma e a composição que se foi abrindo a múltiplas configurações, onde o programa e as tipologias são as variáveis estáveis.

Ainda próximo das referências absorvidas durante o seu período de formação na Escola do Porto, onde foi contemporâneo de Fernando Távora, enquanto aluno, e de Carlos Ramos, então recém director da escola, recebeu os ecos do trabalho produzido durante o inquérito à Arquitectura Regional em Portugal (1955-1960). É, como todos reconhecemos, um trabalho singular na cultura portuguesa do século XX. Dirigido por Keil do Amaral e publicado em 1961, permite “ver” e aproximar a cultura popular da cultura erudita. A imersão no território desconhecido, quer dizer do que está além da unívoca “casa portuguesa”, conhecido o propósito de expor a riqueza e multiplicidade de um património não negligenciável, é um enorme contributo para quem começa a operar em territórios do interior do País. 

Esta genealogia de referentes estabelece, sobretudo, um ambiente e um modo de proceder. A construção da Igreja de Águas em 1957, perto de Penamacor, de Nuno Teotónio Pereira (NTP), é, provavelmente, a obra, a juntar ao lastro moderno da sua formação e à “iluminação” que o inquérito traz ao património rural, com influência mais decisiva e duradoura nas obras posteriores de JPB. De uma assentada, o projecto da Igreja de Águas trata de incluir materiais e processos de construção ancestrais no desenho de uma nova espacialidade, promovendo ainda uma actualização do programa litúrgico. Um modo de “renovar sem romper, usando formas facilmente inteligíveis”2.

 

Fixação de um imaginário moderno 

Neste sentido de enraizamento progressivo, o projecto do novo Externato de Santa Teresinha, no Fundão, (antigo Colégio do Fundão) em 1960-1962, marca um momento importante no seu percurso e tem no enquadramento deste ensaio um duplo destaque: é um momento de síntese na obra de JPB. A sua construção completa cinquenta anos em 2012, mantendo a função original e intactas as principais características.

Tratando-se do seu primeiro edifício de escala e programa públicos, parece conter uma espécie de revisão da matéria e, olhando a obra na sua globalidade, surge como uma síntese para fixar um ponto de partida: princípios modernos de construção, com uma composição seca e simplificada, onde alguns materiais assumem a sua expressão de verdade tectónica.

Reunido o programa da escola num volume único, a sua posição, ligeiramente recuada do plano marginal, contém um desejo de promenade com o desenho do pequeno percurso de aproximação ao edifício. Construído num terreno próximo ao eixo principal do Fundão, a decisão de implantação vem confirmar um novo arruamento, manifestando o carácter urbano e catalisador de um equipamento público.

A clareza na diferenciação dos dois pisos é reflexo da organização do programa da escola, reforçada pela autonomia formal que desenha os dois volumes: calibrados pela mesma estrutura racional e unívoca, o piso 0 é maioritariamente permeável e contém duas salas de aula ao centro e outras duas salas polivalentes a cada um dos lados. Aqui, a relação com o exterior é fluida. Os topos são cegos e estruturais, promovendo uma ancoragem sólida e definindo os limites do plateaux de implantação; o piso 1 tem exclusivamente salas de aula alinhadas – com vista para o interior do lote onde, de uma forma livre, estão os campos de jogos –, servidas por corredor de dimensões generosas. Este volume é encaixado pelos topos, desenhados em simetria, com os acessos e pequenos arrumos. A descolagem dos dois volumes é enfatizada pela moldura estrutural pintada de branco que vai assumindo ligeiras inclinações, fazendo vibrar as empenas e cobertura de forma mais expressiva. Esta espessura quebrada e contínua solta o volume atribuindo-lhe um sentido de movimento, com evidentes referências a exemplos brasileiros.  

A fase de construção desta obra coincide no tempo com a “descoberta” da arquitectura vernácula que se revelou um instrumento precioso para sustentar um olhar crítico sobre o cânone moderno. Também por uma questão de personalidade, conciliadora e dialogante, esta validação cultural viria a sustentar na obra de JPB o apaziguamento com as tradições construtivas e uma maior convicção nas variantes contextualistas do moderno.

 

Espaços de uso colectivo: igrejas e habitação

É imediatamente após a construção do Externato que recebe a encomenda de uma igreja para a localidade do Estreito, em Oleiros (1964). As igrejas e os espaços de culto religioso serão temas que retomará ao longo das décadas seguintes e que constituem um dos núcleos mais significativos do seu trabalho. São evidentes as relações entre o projecto da Igreja do Estreito e a Igreja de Águas, com a assembleia em leque, o uso da pedra em conjunto com o betão, assim como o desenho da implantação e relação entre as peças do programa.

A vontade de modernizar a tipologia tradicional das igrejas é, a partir dos anos de 1950, protagonizada pelo Movimento de Renovação da Arte Religiosa3, onde NTP tem particular influência. O contacto com NTP viria a ser mais efectivo a partir do momento em que JPB transfere grande parte da sua actividade para o domínio do urbanismo, exercendo vários cargos na Administração Local e Central, fazendo neste enquadramento profissional o acompanhamento de algumas obras do Atelier NTP na região.

O acompanhamento de algumas obras permite-lhe também um contacto directo com o património da região, onde, diz: “Havia pouca disponibilidade para descobrir os valores do património, nós íamos aos locais fazer uma apreciação e contribuir com soluções. Naquele tempo, as pessoas, naturalmente por falta de conhecimento, desconfiavam menos dos outros do que do seu próprio desconhecimento e eram mais os casos em que aceitavam as sugestões, sendo, assim, possível criar nas pessoas algum interesse pelos valores do património e da história.”4

Retoma o trabalho sobre as igrejas com o projecto de restauro e conservação da Igreja de Joanes (1970). Coordenado pelos serviços de urbanização e arquitectura de Castelo Branco, o projecto inclui todo o tratamento da envolvente, recuperação da alvenaria de pedra e a colocação de pavimento e cobertura. O desenho de novos genuflexórios e a organização cuidada de todas as peças e imagens religiosas contribuem para a solidez e sobriedade do conjunto.

A remodelação/ampliação da Igreja do Espírito Santo em Idanha-a-Nova (1985-86) constitui uma extensão da pequena Capela de matriz ruralista (provavelmente dos anos 1940). O projecto actualiza o espaço perante as novas normas de celebração litúrgicas e funcionais, com a localização do altar mais próxima da assembleia e a construção de dependências complementares. Um dos aspectos fundamentais é o ter gerado um espaço público qualificado.

Desenhada de raiz, a Igreja de Nª Sª de Valongo, em Castelo Branco (1990), reúne a assembleia em volta do altar com as restantes dependências a crescerem concêntricas a partir da figura octogonal da assembleia. O uso do betão à vista, com as estruturas de suporte a marcar os vértices do octógono, apontam uma expressividade tectónica próxima das propostas de alguns edifícios institucionais de Louis Kahn.

Tem ainda alguma expressão, na obra de JPB, um conjunto de edifícios de habitação colectiva e de espaço público, com destaque para o edifício Alberto Leal Braz na Covilhã (1963-1965), o edifício-sede do Jornal do Fundão (1959), e o edifício ETRA (1965-1967), no Fundão, e o Centro de Segurança Social (1977-1979), em Castelo Branco. O projecto da envolvente do Casa-Museu José Régio, em Portalegre (1972-1973), constitui uma intervenção discreta, com a introdução de plataformas em betão, definindo um percurso entre a vegetação existente e sem alteração da morfologia do terreno, fazendo lembrar, ainda que em pequena escala, o parque da sede da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, inaugurada em 1969. Refira-se, ainda, o jardim municipal de Idanha-a-Nova de 1985, onde se destaca uma extensa pérgula de contemplação da paisagem.

O posicionamento e experiência de JPB contém atributos de uma “actividade de paciente resistência e, ao mesmo tempo, de acção enérgica em prol do futuro, de um futuro para o património moderno”5, e de uma possibilidade de activar a revisão deste imenso território do interior do País.

O universo de cerca de 120 obras e projectos6 reflecte a conjuntura histórica e as condições em que lhe foi dado trabalhar. E as condições não são óbvias, requerem aproximação e reconhecimento para construir uma possibilidade de aceitação do mundo. |

 


* Alison Smithson. Team 10 Primer. Cambridge: MIT Press, 1968.

 

1 Exerceu, sucessivamente, a coordenação da 6ª Zona de Urbanização e Arquitectura em Castelo Branco, a Direcção-Geral de Planeamento Urbanístico de Castelo Branco e da Beira Interior e os Núcleos Operativos da CCRC/DROT dos Distritos de Castelo Branco e Guarda. 

 

2 Ana Tostões. Arquitectura e Cidadania: Atelier Nuno Teotónio Pereira. Lisboa : Quimera, 2004, p. 136.

 

3 Cf. Arquitectura. Nº 60 (Out. 1957).

 

4 Excerto de entrevista conduzida por Rui Mendes a José Pires Branco em 2003, no âmbito de trabalho de levantamento organizado pela Ordem dos Arquitectos a propósito das comemorações do Ano Nacional da Arquitectura – 2003. 

 

5 Geração Moderna, a geração dos Verdes Anos, 2003. Texto inédito produzido para a edição conjunta dos catálogos das exposições do Ano Nacional da Arquitectura 2003 - Ordem dos Arquitectos. No prelo. 

 

6 Foi identificado o universo de trabalho a partir de levantamento em atelier e visitas a obras com o Arquitecto José Pires Branco. Em Dezembro de 2003 teve lugar no Museu de Castelo Branco uma exposição com uma selecção de 24 obras apresentadas com desenhos originais e fotografias do estado actual. Curadoria de Rui Mendes e Esmeralda Carmona; Desenho de Exposição e montagem de Mateus Lorena e Rui Mendes; Fotografia de José Pedro tomaz; Produção da Ordem dos Arquitectos. O catálogo encontra-se por publicar.


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